Alterações fisiológicas na gestação – Parte I

Mulheres gestantes podem apresentar alterações inestéticas.

Sistema endócrino.

Ocorrem mudanças significativas no sistema endócrino durante a gestação, com destaque para 5 hormônios que tem papel fundamental para a gestante e para o feto.

Estrogênio.

Nas primeiras 15 a 20 semanas de gestação o corpo lúteo (responsável pela secreção do estrogênio e da progesterona), aumenta a secreção desses dois hormônios em 2 a 3 vezes o normal, porém após a 16ª semana a placenta também começa a secretar esses hormônios, aumentando drasticamente a sua produção e como resultado a produção de estrogênio se torna 30 vezes maior que o normal. Durante a gestação o estrogênio estimula uma rápida proliferação da musculatura uterina, gerando um grande aumento do sistema vascular para o útero, dilatação do orifício vaginal e dos órgãos sexuais externos e relaxamento dos ligamentos pélvicos, o que permite a maior dilatação do canal pélvico e facilita a passagem do bebê na hora do parto.

• Progesterona.

Possui influência sobre o preparo do útero para receber o óvulo fertilizado e da mama para secreção do leite, durante a gestação a progesterona disponibiliza nutrientes (que ficam armazenados no endométrio) para o crescimento do bebê. A progesterona tem papel essencial na manutenção da gestação, visto que tem efeito inibidor da musculatura uterina, caso não houvesse progesterona, as contrações expulsariam do útero o óvulo fertilizado ou até mesmo o feto em desenvolvimento.

• Relaxina.

Também é produzida pelo corpo lúteo e a sua concentração sobe durante as 12 semanas iniciais da gestação e reduz a partir das 13 semanas. A relaxina é responsável pelo crescimento mamário e auxilia a distensão do útero.

Gonadotrofina Coriônica Humana (hCG).

Secretada a partir da implantação dos trofoblastos no útero. Sua concentração chega a níveis máximos durante a 8ª semana de gestação, exatamente num período em que é vital impedir a involução do corpo lúteo. No meio e no final da gestação, a secreção da gonadotrofina coriônica cai consideravelmente e nesse período da gestação a sua única função conhecida é a de estimular a secreção de testosterona pelo testículo fetal e tem um papel muito importante no desenvolvimento do feto masculino.

Somatomamotropina Coriônica Humana ou HLP (Hormônio Lactogênico Placentário).

Seu efeito é diminuir a utilização de glicose pela mãe, e, portanto, a torna mais disponível, e em maior quantidade, para o feto. Ao mesmo tempo promove uma mobilização aumentada de ácidos graxos dos tecidos adiposos da mãe, de modo que possa usar essa gordura para sua própria energia, em lugar da glicose.

Sistema cardiovascular

Na gestação, a quantidade de sangue bombeada pelo coração por minuto aumenta de 35% a 50% progressivamente. Esse aumento é maior no plasma que em células vermelhas e o coração está maior devido ao movimento do diafragma. Os batimentos cardíacos aumentam em 40%, podendo haver distúrbios no ritmo cardíaco.

A pressão venosa aumenta ocasionando uma dilatação dos vasos de até 60 vezes, principalmente nos membros inferiores se a gestante ficar em pé. A pressão arterial pode sofrer quedas ao longo da gestação, normalmente voltando ao normal 6 semanas após o parto.

Sistema respiratório.

Modelo grávida exercitando sua respiração.
Gestante realizando exercícios respiratórios.

No sistema respiratório, o volume corrente, a ventilação por minuto e a profundidade da respiração aumentam, mas sem interferir na frequência. A capacidade pulmonar total se mantém inalterada, ou levemente diminuída. Ocorre um aumento de 15% a 20% no consumo de oxigênio, podendo ocasionar hiperventilação – respiração excessivamente rápida e profunda – enquanto a gestante exerce atividades físicas leves, então, praticamente todas as gestantes têm a sensação de falta de ar quando fazem algum esforço, em especial para o final da gestação.

Função renal

A gestante pode sofrer alteração em seu sistema urinário, causando refluxo de urina para fora da bexiga e de volta para a ureter, podendo acarretar infecções urinárias. Isso porque os ureteres penetram na bexiga em um ângulo perpendicular por causa do alargamento uterino.

Como a função renal é muito sensível à postura durante a gestação, geralmente aumentando a função quando a gestante está deitada e diminuindo na posição vertical, é comum a gestante sentir necessidade frequente de urinar quando tenta dormir. Além disso, o crescimento progressivo do útero aumenta a pressão sobre a bexiga, contribuindo para uma maior frequência urinária.

Sistema gastrointestinal

Enjoos e azia são comuns na gravidez.
Durante a gestação, é comum apresentar enjoos e azia.

A constipação é comum nesse período e pode ocorrer devido à pressão do útero contra o reto, além disso, são comuns as queixas de regurgitação e azias, que são ocasionadas pelo retardamento no tempo de esvaziamento gástrico e do relaxamento do esfíncter na junção do esôfago com o estômago, com consequente refluxo do conteúdo gástrico.

A ação da progesterona reduz o tônus do esfíncter gastroesofágico, predispondo a sintomas de refluxo e quando a gestante fica deitada pode perceber piora nesses sintomas.

Sistema osteomuscular

Os músculos abdominais tendem a se alongar até o ponto de seu limite elástico no final da gravidez. A influência hormonal nos ligamentos é profunda, produzindo uma diminuição sistêmica na força de tensão ligamentar e um aumento na mobilidade das estruturas suportadas pelos ligamentos.

Em decorrência a esta frouxidão ligamentar, ocorre então hipermobilidade articular e essa pode predispor a gestante à lesão articular e ligamentar, especialmente nas articulações que sustentam peso na coluna, pelve e membros inferiores. Os músculos do assoalho pélvico precisam suportar o peso do útero, que desce até 2,5 cm. Ele pode ser distendido, rompido, ou ambos, durante o parto.

Também é caracterizada uma alteração postural como um mecanismo compensatório, que procura reduzir os efeitos do aumento de massa e distribuição corporal na gestante. Um exemplo disso é a hiperlordose lombar, que ocorre devido à distensão dos músculos da parede abdominal e à projeção do corpo para frente do centro de gravidade.

Graças ao aumento uterino no abdômen, as articulações dos joelhos e dos tornozelos se tornam menos estáveis, e as da coluna vertebral e do quadril atingem um pouco de mobilidade, o que expõe a musculatura dessas regiões a uma maior tensão.

Mamas.

Mãe amamentando seu filho.
Mãe amamentando seu bebê.

Devido ao aumento das concentrações de prolactina há o estímulo para o crescimento das mamas e isso acaba tornando-as mais sensíveis. A mama pode aumentar de peso no final da gestação e no segundo mês, ao redor dos mamilos, as glândulas sebáceas tornam-se dilatadas e nodulosas, recebendo o nome de tubérculos de Montgomery, e a pigmentação secundária que aparece recebe o nome de dupla aréola. Essas modificações ocorrem a fim de possibilitar o processo de produção de leite e amamentação.

Mudanças mecânicas na gestação.

Enquanto gestante, a mulher tende a adaptar a sua postura para compensar a mudança do seu centro de gravidade. Em uma mulher não grávida, o centro de gravidade está localizado em frente à coluna vertebral, na altura dos rins. Mas em gestantes, o centro de gravidade torna-se mais anterior, forçando a coluna vertebral. Neste processo, é comum a mulher caminhar com uma base de suporte mais larga e a simples ação de andar, subir escadas, abaixar-se e levantar-se para pegar algum objeto, acaba se tornando mais difícil.

O peso do corpo agora está sobre os calcanhares para trazer o centro de gravidade para uma posição mais posterior. Essas alterações na postura ocorrentes na gestação geralmente não se corrigem espontaneamente após o nascimento do bebê. Por isso a postura da mulher grávida pode ser mantida como uma postura adquirida.

Lordose vertical.

A lordose vertical aumenta e desenvolve-se um posicionamento anteriorizado da cabeça para compensar o alinhamento do ombro. Neste momento os ombros estão se modificando, ficando mais arredondados com proteção escapular e rotação interna dos membros superiores. Isso se deve ao crescimento das mamas e também para que a mãe possa cuidar do bebê após o nascimento. A lordose lombar aumenta para compensar a mudança no centro de gravidade e os joelhos se hiperestendem, provavelmente devido à mudança na linha de gravidade. A gestante deve evitar o aumento da lordose com uma boa compensação de carga, puxando para frente.

Modelo gestante com dor nas costas.
Nas fases mais avançadas da gestação, a mulher pode sentir dores nas costas.

Após o nascimento, o ato de carregar o bebê no colo pode fazer com que a mãe conserve má postura. Especialistas apontam que no aparelho locomotor um dos pontos mais importantes a ser trabalhado durante a gestação é a estática. Uma boa postura evita problemas no aparelho locomotor e órgãos internos. Uma atitude defeituosa causa relaxamento ao nível das articulações vertebrais e seus ligamentos, cujas consequências podem persistir ao longo dos anos.

O processo da gestação provoca uma diminuição da rigidez do aparelho ligamentar. Também causa uma menor tonicidade muscular, o que vai exigir um esforço maior da musculatura bem como acrescentar a compensação da coluna para trás, causada pelo peso do ventre, o que pode forçar a mulher desavisada a tomar uma atitude errada de estática.

A forma completa de atendimento para gestantes você encontrará em meu livro Gestantes: cuidados estéticos durante a gravidez.

Livro Gestantes, de Isabel Piatti.
2ª edição do livro Gestantes: cuidados estéticos durante a gravidez, de Isabel Piatti.

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