BIOSSEGURANÇA APLICADA À MICROPIGMENTAÇÃO Parte I

A busca por procedimentos estéticos e de embelezamento cresce a cada dia, e com esta demanda cada vez maior, observamos um crescimento acentuado da oferta desses serviços. Entretanto, não necessariamente existe capacitação adequada dos profissionais ou o serviço prestado é realizado dentro do rigor de higiene e boas práticas.

Infelizmente é comum ouvir queixas de clientes e profissionais diretamente relacionadas a disputas de mercado regadas a ofertas, promoções e descontos cada vez maiores, em procedimentos que devem ser aplicados não apenas de acordo com a vontade do cliente, mas principalmente de acordo com a sua necessidade e adequados as suas características, indicações ou contraindicações.

Com o objetivo de minimizar o impacto destes problemas no mercado estético, é aconselhável adotar medidas já muito utilizadas em hospitais em todo o mundo, a estas damos o nome de profilaxia biológica ou biossegurança. Desenvolver um trabalho pautado pela biossegurança não é um diferencial no mercado e sim uma obrigação de cada profissional, pois demonstra seu conhecimento, ética e respeito de cliente.

CONCEITO DE BIOSSEGURANÇA

A biossegurança é uma área de conhecimento definida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como: “condição de segurança alcançada por um conjunto de ações destinadas a prevenir, controlar, reduzir ou eliminar riscos inerentes às atividades que possam comprometer a saúde humana, animal e o meio ambiente.”

Na estética e micropigmentação, a prevenção, o controle, a redução ou eliminação de riscos, estão intimamente relacionados às boas práticas profissionais, que tem o propósito de garantir a integridade de seus clientes, reduzindo riscos de contaminações por micro-organismos e seus respectivos danos para a saúde.

A Biossegurança é responsável por estabelecer padrões de qualidade em termos de segurança do serviço prestado. De acordo com informações da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), o Brasil é o terceiro maior mercado de beleza, perdendo somente para os Estados Unidos e o Japão. Tais estatísticas embasam a preocupação visando a segurança de todos.

Hoje, infelizmente, para boa parte dos profissionais existe um despreparo técnico e na maioria dos casos um desconhecimento básico de doenças que podem ser disseminadas por contato físico dentro de ambientes fechados. Além disso, a relação entre o profissional e o cliente, exige uma maior proximidade e o contato físico é inevitável. Outro agravante é que no Brasil com o crescimento no número de clínicas e profissionais autônomos, as ações preventivas acabam se tornando falhas, abrindo um precedente para contaminações com os mais variados agentes patogênicos. Para diminuir riscos de infecções e aumentar a segurança do serviço prestado pela empresa o ser humano precisa ser visto tanto como alvo de contaminações como um ser que contamina, tanto o profissional como o cliente.

PERIGOS FRENTE À EXPOSIÇÃO AOS ORGANISMOS PATÓGENOS

São considerados riscos biológicos: os vírus, as bactérias, os parasitas, os protozoários, os fungos e os bacilos. Os riscos biológicos ocorrem por meio do contato direto com o indivíduo, ambiente, ou qualquer material contaminado. As principais – são as bactérias, elas necessitam de um modo de transporte para a sua proliferação no ambiente, são eles: as mãos, roupas, equipamentos, utensílios e superfícies de contato.

A contaminação biológica no ser humano ocorre de forma cutânea ou percutânea, com ou sem lesões, contaminação via aérea (respiratória), conjuntiva (pele), oral (ingestão) e via ocular (mucosa conjuntival). Existem evidências sobre contaminação em manicures, pedicures, podólogos, cabeleireiros e barbeiros em locais como: salões de beleza, barbearias, hospitais e instituição para idosos.

Isso ocorre por inúmeros fatores, a começar pela quantidade de instrumentos para o atendimento dos clientes, reuso de materiais descartáveis como agulhas, lençóis e espátulas, além da inadequada desinfecção e esterilização de instrumentais e equipamentos, uso incorreto de soluções químicas desinfetantes, falta de assistência no pós-trauma à pele e mucosas, desconhecimento da necessidade de vacinar, o incorreto descarte de materiais cortantes e perfurantes, o uso incorreto ou o não uso de equipamentos de proteção individual (EPI’s) e as falhas no uso de equipamentos de proteção coletiva (EPC’S) e na prevenção de acidentes.

RISCOS RELACIONADOS A CONSULTÓRIOS DE ESTÉTICA E CENTROS DE EMBELEZAMENTO

O grande perigo de fazer um procedimento que envolve exposição a material biológico é desconhecer quais são os riscos do procedimento e quais as medidas que podem reduzi-los. Assim, o conhecimento dos riscos inerentes a atuação na saúde e estética, assim como a aplicação correta de recursos voltados para o controle destes riscos são fundamentais para um trabalho ético e seguro.

Entre os riscos relatados estão: riscos biológicos, bioquímicos e químicos, físico-acidentais e ergonômicos. Destes, os que são mais encontrados em ambientes de micropigmentação são os riscos biológicos e ergonômicos.

Riscos Biológicos

Entra nessa categoria qualquer tipo de ser vivo que possa apresentar algum tipo de ameaça: bactérias, Leveduras, Fungos, Parasitas e também outros seres humanos. O risco pode ficar em materiais usados pelos profissionais (dermógrafos, alicates, espátulas, escovas, canetas, pincéis, máscaras, luvas, toucas, entre outros). Doenças como Hepatites B e C, Tétano, HIV e Herpes são riscos biológicos durante a micropigmentação.

Riscos bioquímicos e químicos

Risco químico é quando se envolve algum perigo ao manusear materiais químicos que podem causar danos físicos ou prejudicar a saúde, podemos dizer que substâncias tóxicas se encaixam nessa categoria.

Riscos físico-acidentais

Envolvem-se aqui riscos com equipamentos, máquinas usadas pelo profissional de estética, e também a infraestrutura e instalação da clínica. Entram nessa categoria temperaturas excessivas, vibrações, radiações, umidade, eletricidade e incêndio.

Riscos ergonômicos

Envolve-se a engenharia humana, são fatores que também podem entrar na categoria de riscos físicos, inclui-se aqui o esforço físico, postura inadequada durante procedimentos, situação de estresse e monotonia/repetitividade.

Tendo o conhecimento destes riscos é muito mais simples adotar condutas que os minimizem, por exemplo, quando se fala em risco biológico, o simples fato de lavar as mãos de forma correta, pode evitar uma série de contaminações, seja por fungos ou bactérias. Esta lavagem tem a finalidade de livrar as mãos da sujeira, removendo bactérias, transitórias e residentes, como também, células descamativas, pelos, suor, oleosidade da pele, e deverá ser feita antes e depois de atender cada cliente.

Mas existem critérios na hora de escolher o produto de higienização. Por exemplo, o sabonete em barra, ao formar rachaduras, pode abrigar muitas bactérias. A própria água da saboneteira, somada aos restos que se dissolveram, também é criadouro para os micro-organismos, pois não contém álcool em sua formulação.

Além disso, para oferecer uma higienização mais profunda, evitando a propagação de germes que podem ocasionar infecções. É indicado o complemento da lavem das mãos com o uso de um produto antisséptico.

CONTAMINAÇÕES EM AMBIENTE DE ESTÉTICA

O risco de contaminação na estética é real, por mais simples que seja o procedimento, ou por mais banal que seja esquecer de trocar a toalha da maca ou não trocar a máscara bucal diariamente, todas essas pequenas situações cotidianas implicam em risco de contaminação.

Às vezes o risco está onde não imaginamos. Em um experimento, realizado por uma professora de microbiologia, foi constatado que todos os celulares das pessoas que participaram do teste, no Centro de Campinas (SP), estavam contaminados. Para corroborar esta informação, observamos o resultado de uma pesquisa que foi realizada na Inglaterra pelo professor de microbiologia, ele concluiu que um celular é tão sujo quanto uma sola de um sapato.

Também houve um estudo da empresa britânica Initial Washroom Hygiene, especializada em limpeza de banheiros públicos. Existem mais micróbios nas bolsas femininas do que na superfície de vasos sanitários, a pesquisa mostrou que cremes de mãos, batons e estojos de maquiagem são os itens mais sujos que as mulheres carregam nas bolsas.

Tendo esse conhecimento fica muito claro que os hábitos de biossegurança devem ser continuamente executados e também ensinados aos nossos clientes. Portanto, bolsas, celulares, estojos de óculos, maquiagem e afins não devem ter contato com as superfícies utilizadas durante as técnicas de micropigmentação ou estética (balcões, pias, armários, macas, mochos, carrinhos, etc). Assim como as mãos da cliente também devem ser higienizadas antes do procedimento ela não deve ter contato com celular ou bolsa.

A seguir temos o relato e os achados de um experimento sobre contaminação em ambiente de estética.

Experimento com as placas de Petri

Uma placa de Petri, ou caixa de Petri é um recipiente cilíndrico, achatado, de vidro ou plástico que os profissionais de laboratório utilizam para a cultura de micróbios. O nome foi dado a este instrumento de laboratório em honra ao bacteriologista alemão Julius Richard Petri (1852-1921) que a inventou em 1877 quando trabalhava como assistente de Robert Koch. É constituído por duas partes: uma base e uma tampa.

Normalmente, para usar em estudos de microbiologia, a placa é parcialmente preenchida com um caldo líquido de ágar onde estão misturados alguns nutrientes, sais e aminoácidos, de acordo com as necessidades específicas do metabolismo do micro-organismo.

Tendo em vista a ampla diversidade metabólica dos micro-organismos, existem vários tipos de meios de cultura para satisfazer as variadas exigências nutricionais. Além dos nutrientes é preciso fornecer condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento dos micro-organismos, tais como pH, pressão osmótica, umidade, temperatura, atmosfera (aeróbia, microaeróbia ou anaeróbia), dentre outras. São classificados quanto ao estado físico em:

  • Sólidos: quando contêm agentes solidificantes, principalmente ágar (cerca de 1 a 2,0 %);

  • Semi-sólidos: quando a quantidade de ágar e ou gelatina é de 0,075 a 0,5 %, dando uma consistência intermediária, de modo a permitir o crescimento de micro-organismos em tensões variadas de oxigênio ou a verificação também para conservação de culturas;

    Produto utilizado no experimento

O produto é  um fluido que garante a higienização e a hidratação das mãos e demais áreas aplicadas. Seu uso é indicado em tratamentos estéticos em geral, podendo ser aplicado em diversas regiões do corpo (rosto, mãos, axilas, pés), devendo ser evitado na área dos olhos.

Entre os ativos da composição do produto estão: a Clorexidina (10mg/g); o Dimeticone (lubrificante – 15mg/g) e a Ureia (hidratante – 20mg/g).

A Clorexidina é uma substância química que foi introduzida há muitos anos como antisséptico de amplo espectro contra bactérias gram-positivas e negativas em clínicas odontológicas, usada como padrão-ouro pois possui a função de romper a integridade das membranas citoplasmáticas de bactérias resultando na perda de constituintes celulares vitais, como o ácido nucleico e potássio.

Tem ação eficaz contra as bactérias Salmonella choleraesuis, Pseudomonas aeruginosa e Staphilococcus aureus.

Descrição do experimento

Para demostrar alguns tipos básicos de contaminação, como fungos e bactérias, foram selecionadas de uma clínica de estética alguns utensílios, logo após o seu uso, são eles: ponteira de peeling de diamante, touca, luva usada, e toalha. E com objetivo de comprovar o efeito antisséptico da Clorexidina.

Para visualizar de modo adequado foram feitos os seguintes experimentos:

  • Ponteira de peeling suja

  • Ponteira de peeling com o antisséptico

  • Mão suja

  • Mão com antissepsia

  • Toalha usada

  • Luva usada

  • Máscara usada
    Todos as placas semeadas foram colocadas na estufa com temperatura de 35º graus, por cerca de 36 horas.

Resultados

Em apenas 36 horas, já era possível notar o crescimento de bactérias e fungos, nas culturas que não utilizaram o produto.

ponteira de peeling usada x ponteira de peeling com antisséptico

 X 

Mão suja x Mão com antissepsia

Toalha usada

Luva usada sem antissepsia prévia

Máscara bucal usada

BIBLIOGRAFIA

Garbaccio JL, Oliveira AC De. Biossegurança e risco ocupacional entre os profissionais do segmento de beleza e estética: revisão integrativa. Rev Eletronica Enferm. 2012;14(3):702–11.

Zanatta FB, Rösing CK. Chlorhexidine: action’s mechanisms and recent evidences of it’s efficacy over supragengival biofilm context. Sci – A. 2007;1(2):35–43.

Moreira A, Bambace J, Olavo A, Jorge C. Efficacy of chlorexidine aqueous solutions to desinfect surfaces. Rev Biociência. 2003;9:73–81.

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