Qual a influência da epigenética no resultado dos tratamentos estéticos?

Talvez a primeira coisa que você pensou ao ler o título desse texto tenha sido: o que é essa tal de epigenética, que eu nunca ouvi falar. Mas os que acompanham o meu trabalho há mais tempo provavelmente já ouviram ou leram materiais meus explicando por que é tão importante que os profissionais conheçam a ação da epigenética e qual a influência que ela pode exercer nos resultados dos tratamentos estéticos. Porém percebo que, mesmo para quem já ouviu falar no assunto, nem sempre consegue aplicar esse conhecimento em seu dia a dia de trabalho em cabine. Mas eu vou mostrar para vocês como vale a pena e pode ser bem mais simples do que se imagina (e super vantajoso também).

Para ficar mais fácil, vamos começar falando de genética, uma palavra que ouvimos com mais frequência. Genética tem relação com os genes, com o que herdamos de nossos antepassados, ou seja, tudo que é hereditário e sobre o qual não temos domínio: a cor de nossos olhos, da pele, do cabelo, nossa altura, formato do rosto… até mesmo algumas doenças são atribuídas ao caráter hereditário. Basicamente é aquilo que podemos explicar, de maneira simples e direta, como: era para ser assim e não temos como mudar. A não ser que você interfira com outros recursos, afinal, hoje já é possível transformar a cor do cabelo com tinturas e mudar a cor dos olhos com o uso de uma lente de contato, e o formato de alguns atributos do corpo com intervenções cirúrgicas, como as plásticas, mas aí já é outra história.

Em alguns casos, algumas características físicas ligadas à estética, são também atribuídas à genética: tamanho dos seios, largura do quadril, afinamento da cintura, etc. A análise do formato do corpo leva às classificações por biotipo (androide e ginoide) e àquela identificação mais popular das categorias do tipo ampulheta, triângulo invertido, pêra, retângulo, e oval, justamente porque o formato do corpo em questão lembra essas formas.

Até aqui tudo bem, é até fácil de compreender, embora a genética também tenha lá os seus mistérios. Geralmente os filhos costumam mesmo ser a cara dos pais (ou mais do pai, ou mais da mãe, ou uma mistura dos dois) e os irmãos costumam trazer muitas semelhanças entre si. Mas não são raros os casos de irmãos em que um tem a pele mais morena e cabelos escuros enquanto outro tem olhos claros e pele extremamente sensível ao sol. Também não são raros exemplos em que um é mais baixinho e o outro mais alto, ou então um mais magro (corpo longilíneo) e o outro com o tipo de silhueta definida de endomorfo – aquela caracterizada por possuir maior percentual de gordura, aparência mais arredondada, baixa definição muscular e braços e pernas curtos em relação ao tronco. Tudo isso porque a genética não vem só de nosso pai e de nossa mãe. Também vem dos avós, bisavós… são características que passam por várias gerações de nossas famílias até chegarem a nós, e que certamente nós passaremos adiante, ainda por algumas gerações.

Falar sobre genética não causa tanto estranhamento pois é um assunto que estamos mais familiarizados, que já nos acostumamos a ver na TV, ler nas revistas, desde as abordagens mais simples até as mais complexas, e que nossas crianças aprendem até na escola. Analisar o que nos assemelha a nossos antecessores é genética, é tudo aquilo que vamos trazendo de geração em geração e vamos passando adiante, aos nossos descendentes e sobre o qual não temos domínio, não podemos determinar o que vai ou não acontecer. Mas então, como se explica o caso de gêmeos idênticos e, portanto, com a mesma carga genética, que na infância trazem muitas semelhanças físicas entre si, mas que, ao longo dos anos, tornando-se mais perceptível na fase adulta, começam a apresentar diferentes aspectos físicos um do outro?

Pois esse é justamente um dos exemplos que costumo utilizar para explicar o que é a EPIGENÉTICA e como ela influencia a vida e os aspetos naturais do indivíduo, já que está relacionada aos hábitos e ao meio em que a pessoa vive. Vamos aos casos práticos: se temos irmãos gêmeos em que um adota hábitos de vida mais saudáveis, com alimentação equilibrada, sono regulado, prática de atividades físicas, enquanto o outro é sedentário, tem uma vida agitada, vive estressado, se alimenta de forma exagerada sem se preocupar com a ingestão adequada de nutrientes e ainda fuma e bebe sem moderação, é bem provável que com o tempo eles passem a apresentar algumas características que vão diferenciá-los um do outro, e que podem se apresentar de diversas formas, como ganho de peso, sinais de envelhecimento mais acentuado, menor vitalidade física, bem como alterações fisiológicas do organismo, mudanças no metabolismo, desequilíbrios hormonais, inclusive reflexos patológicos, como aumento de colesterol, triglicerídeo, nível de açúcar no sangue, etc.

O mesmo vale para hábitos aparentemente mais simples do dia a dia, que às vezes passam despercebidos, como a exposição ao sol. Se um dos gêmeos morar em uma cidade com menor incidência de sol ao longo do ano (como as cidades do sul do Brasil) e o outro passar a viver em uma cidade do Nordeste (em que o sol predomina em grande parte do ano) e se tiverem hábitos diferenciados de horários de exposição e tipo de proteção, a reação da pele a essa ação epigenética, com o passar dos anos, fará com que os dois apresentem diferenças em termos de aparência e até saúde da pele.

Resumindo: mesmo que sua genética estipule, ou seja, programe determinadas situações para sua vida já no momento de seu desenvolvimento embrionário, os fatores epigenéticos é que poderão exercer grande influência e até determinar se elas vão efetivamente se concretizar. E essa ação está presente na vida de todos nós, não apenas na dos gêmeos, como citei nos exemplos acima, é que nesses casos acaba sendo mais fácil de explicar, comparar e visualizar a ação epigenética, mas ela está presente no dia a dia de todos nós e influencia muito mais do que possa parecer.

Também gosto da explicação que o Dr. Victor Sorrentino deu para o que é epigenética em um post recente em uma rede social e que você pode ler aqui.

Em suas abordagens, ele, que atua com cirurgia plástica, sempre aborda questões sobre medicina personalizada, medicina integrativa e longevidade saudável. Inclusive nesse texto que indiquei para vocês ele comenta que: “… de acordo com os princípios da epigenética, nossos hábitos não causariam apenas mudanças na nossa vida, mas seriam capazes de alterar as características biológicas das nossas futuras gerações.” (Dr. Victor Sorrentino)

E o que sempre busco levar para vocês, meus colegas de profissão na área de saúde estética, é que esse nosso universo está totalmente inserido nesse contexto do conceito de epigenética e de sua ação nas alterações e também no resultado dos tratamentos estéticos. Veja a acne, por exemplo. Uma das causas dessa alteração é justamente a genética, e outras tantas estão relacionadas aos costumes e modo de vida da pessoa. Dessa forma, o fato de conhecer as influências epigenéticas e de poder orientar nosso cliente com relação a esses fatores vai ter ação direta nos resultados dos tratamentos. Se geneticamente uma pessoa já tem mais propensão a desenvolver manchas na pele, com os devidos cuidados, poderá prevenir os danos de forma mais efetiva, bem como atuar de maneira mais assertiva no tratamento. Isso vale para diversas situações as quais nos deparamos com frequência na cabine de estética.

Ou seja, mesmo que geneticamente um indivíduo esteja predisposto a ter determinada alteração inestética, há a possibilidade de que não venha a desenvolvê-la se evitar a exposição aos agentes potencializadores e determinantes. Muitos médicos e outros profissionais da área da saúde e da beleza já falam sobre a influência do meio e dos hábitos em nosso dia a dia, seja com relação a doenças e a ter uma vida mais saudável, seja direcionado ao desenvolvimento físico e às alterações inestéticas. Se você começar a prestar mais atenção, vai se lembrar do que estou falando. A única coisa que ainda não é habitual entre a maioria desses profissionais, é o uso do termo epigenética para explicar a influência desses fatores externos em nosso organismo, mas o conceito está presente em muitos argumentos defendidos por esses profissionais.

Outra comparação que explica bem a aplicação da epigenética em estética é quando utilizamos como exemplo os conceitos de envelhecimento. Antigamente era comum o uso dos termos “envelhecimento intrínseco”, que é caracterizado como de ação interna, aquele que se dá com o passar dos anos, e que, trazendo para os dias mais atuais, podemos justamente equiparar com o que chamamos de ação genética, ou seja, aquela que vai se dar de maneira natural com o tempo, querendo ou não, independente da nossa vontade, é o envelhecimento natural, digamos assim, e que para alguns e mais ou menos acentuado, dependendo justamente de sua herança genética. O outro tipo de envelhecimento que se dá em paralelo ao intrínseco (também em maior ou menor grau, conforme o nível de exposição) é aquele chamado de “envelhecimento extrínseco”, e que, como o nome já diz, se dá por fatores externos, como a ação da radiação, da poluição, das mudanças climáticas, e que aqui vem bem ao encontro do que comentamos sobre a influência dos fatores ambientais e dos hábitos de vida, sendo essa a ação epigenética.

E, já que falamos em envelhecimento, também gostaria de compartilhar com vocês uma entrevista bem esclarecedora, com o Dr. Carlos Schlischka, que assisti esses dias em que ele fala sobre a idade cronológica que temos, que é aquela ditada pela nossa certidão de nascimento, e aquela que aparentamos ter, e que sofre influências epigenéticas. Clique aqui e assista, vale a pena.

Por isso, embora a abordagem na área de saúde estética, com o uso específico do termo epigenética, seja relativamente nova e ainda cause um pouco de receio e até mesmo confusão entre os profissionais que atuam no segmento, ela é super atuante e presente em nosso meio. Mas, infelizmente, muitos não fazem essa associação logo de cara e acabam não vendo o potencial de trabalho que essa nova visão pode trazer, representando uma verdadeira evolução nos atendimentos e, é claro, na obtenção de resultados, pois está diretamente ligada à avaliação precisa do cliente e na realização de tratamentos estéticos cada vez mais personalizados de acordo com as necessidades e características de cada um.

Compreender qual o papel e a influência da epigenética nas síndromes das desarmonias corporais, sem dúvida promove no profissional de saúde estética uma mudança global na sua visão e na forma como irá aplicar seu conhecimento nos tratamentos de seus clientes.  Independente da queixa que ele traz consigo e da alteração em questão, será preciso conhecê-lo além de sua aparência, será preciso avaliá-lo em sua essência. E isso nos remete a um assunto que comentamos recentemente, que é a estética humanizada e que você pode conferir aqui.

Com tudo isso, fica fácil entender o porquê de a epigenética ter se tornado uma das áreas mais promissoras não só da ciência, mas também da estética nos últimos anos, embora nem sempre com esse apelo e essa denominação, mas sempre a partir da teoria da ação do meio e dos hábitos de vida sobre o indivíduo. Esse é um dos assuntos que mais tenho pesquisado atualmente e que sem dúvida me deixa cada vez mais fascinada em descobrir as possibilidades de aliar esses conceitos à prática de determinar tratamentos estéticos com combinações cosmética efetivas, que tragam resultados satisfatórios.

Para finalizar, deixo proponho uma reflexão: sabe aquela frase de que “você faz seus hábitos e seus hábitos fazem você”? Pois é, ela também vale para a estética.

Um abraço e até a próxima!

 

One comment

  1. Oi Isabel,
    Adorei o texto. O termo Epigenética conheci através da Buona Vita, agora que sei mais um pouco sobre ela, com sua explicação suave e clara, adorei! ❤

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